terça-feira, 4 de julho de 2023

 

   Retorno

AJ Fontes

Olá.

Dias passaram, não iguais ao porvir, tão pouco entre si. Foram-se afazeres, lugares, amigos. Aproximaram-se outras situações, boas ou não. Cada uma ocupando os instantes que lhes cabia; diga-se: transformações ocorreram trazendo saudades, medos, anseios.

Uma vontade veio longe no tempo e se manteve guardada nos pensamentos de caminhar estradas distantes, ver paisagens diferentes, distantes. Sem a pretensĂŁo de buscar qualquer coisa e apenas me embevecer com o caminho.

Desmanchei pensamentos acomodados tal a mesa na sala ou a cama no quarto da minha morada que nĂŁo demorou, cada qual, arrumar outro canto que lhe coubesse. Sobraram os livros e documentos guardados em local sabido e seguro.

Num ponto do caminho encontrei certos Olhos Claros, passando a encontrá-los dias sim e outros também, enxergando novas trilhas à quatro olhos, mas as paisagens, aquelas diferentes, distantes, não deixaram de preencher os pensamentos. Em seguida buscaria um lugar sossegado, não longe que impedisse visitas aos amigos, irmãos, nem tão perto a me impregnar dos vícios da cidade grande.

Antes de voar  nas asas da TAP, busquei um cantinho na fria Serra da Russa, acompanhado dos Olhos Claros, certo de experimentar a quietude.

Nesse meio tempo todos precisamos nos recolher e decidimos permanecer no interior por oferecer ares saudáveis.

Dizer que foi de súbito ou sorrateiro, não sei. Verdade é que se implantou momentos de medo, dor nos dias que se alongaram em meses, anos e me fez reavaliar a ordem do planejado. Acomodamos nossas vidas em uma pequena casa e lá nos ajudamos na aprendizagem de uma maneira de viver diferente de até então.

Das novas vivências, o convívio com um tal Freud, o gato e a negra cadela, Amora nos trouxe alegria, além da chegada de mais um neto. Vieram meio aos tijolos, cimento e telhas da futura vivenda se instalando no pequeno sítio escolhido para guarida.

Chegamos, então, ao depois da mistura de emoções providenciada pela vida, com a promessa de modificações nos arranjos sociais, nos empregos, equipamentos tecnológicos capazes de oferecer mais conforto, bem-estar, segurança. Minha esperança é que não esqueçamos de nos aproximarmos uns aos outros. Abraços, conversas, risos são bem-vindos.

Escrevo do escritório da casa no sítio no retorno a este espaço criado para expor histórias passadas ou inventadas, desejoso por conversar e provocar risos.

Abraços todos os leitores, amigos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Deixa estar




Deixa estar

AJ Fontes

Nos fios soltos das fitas coloridas presas ao punho flutuam lugares, sorrisos e lágrimas. Rostos cansados assistem ao desfile sobre a esteira abaixo de um painel que indica o local de onde vieram. Grandes, pequenas, novas e velhas. Lá vem. Duas ou três décadas de convivência? Vai saber!

Alto-falantes anunciam, após um sinal: locais, horários, advertências. Às costas, gritos e aplausos quando as portas se abrem e aparece a faixa: BEM-VINDO. Outros cruzam os braços, espicham o pescoço em busca de alguém do lado de cá.

- Vem de onde?

A conversa prossegue sob o sol escondido nas nuvens, que deixa o ar abafado e suados os jovens em suas fardas e os homens de ternos que aguardam o semáforo ordenar a travessia.

Depois do pagamento, as fitas tremem no trepidante caminho das rodinhas entre as pedras do piso até o hall do elevador.

As sujas vão direto para máquina de lavar. O espelho reflete o rosto cansado, mas satisfeito. Novos lugares para lembrar, amigos com quem compartilhar momentos futuros.

Banhado, alimentado, a cabeça recostada no sofá. As copas das árvores balançam emolduradas pela janela.

Faz tempo que estou só. Gosto, mas... Talvez seja um momento de encontrar uma bruxinha que me seduza; me encante. Sempre bate a insegurança. Sou capaz? Dou conta? A falta de maturidade acompanhou minhas justificativas até algum tempo atrás. Convenha cara! Não seria essa agora, depois de cinco décadas de vivência.

A testa sua, levanta, assovia let it be, acompanha com a cabeça balançando enquanto chega na cozinha e enche o copo com água.

Quero compartilhar bons momentos com uma mulher, mas existe aquela coisa de manter indefidamente. Pra que se perder na possibilidade do futuro se encontramos aqui a realidade do presente?

A garganta sente o frescor que lhe extasia e seguem os afazeres da casa sem atenção desde o mês passado. Transponho papéis acumulados há meses da lixeira do escritório para o mesmo saco onde tudo que me serviu por algum tempo irá, inclusive a caixinha colorida guardiã de um certo azulzinho. Dou conta? Dou conta? Dou conta? Let it be, let it be.

Os ventos levaram as nuvens e o sol não está mais ali. Escondido, deixa uma mancha rubro-violeta na linha do chão distante. Os cantos limpos do apartamento mostram o vazio do peito. Puxa vida, isso é letra de bolero ruim! No impulso, arrasto a careta e o resto do corpo, depois de alinhado no jeans, ao bar.

Todos à mesa. Cabeças brancas ou desprovidas de pelos balançam ao gargalhar, os amigos abarcam carinhosamente os copos com a mão. O mesmo garçom substitui a garrafa ao cair a última gota de cerveja em qualquer deles.

Palmas ao desaparecido que fui até então. Perguntas e respostas sobre filhos, netos; a última piada do Joca.

Uma figura longa, vestido branco estampado com flores coloridas, cabelos loiros dança embaçada nas lágrimas de riso. Apanho um guardanapo na mesa e seco os olhos. Ela senta na mesa à frente. Sorri com as amigas e os olhos claros encontram os meus.

Um gole alivia a secura da garganta; as piadas sĂŁo apenas sons.

Levanto, sigo o caminho que enxergo.
 

Livro de contos: Mantas e Lençóis

Amigos.
           Faz algum tempo que nĂŁo publico textos nesse espaço. A razĂŁo Ă© o livro que estarei lançando no prĂłximo mĂŞs de novembro. Tomou tempo e esforço, alĂ©m do novo caminho que a vida me apresenta: Aposentadoria. O novo ciclo tem seu jeito diferente de mostrar os dias. NĂŁo que seja enfadonho, ao contrário, as horas se encurtam ao lidar com as atividades que se apresentam. Mas, eis-me aqui.
          Na sequĂŞncia apresento um texto recente.
          Abraço a todos.

domingo, 20 de agosto de 2017

Quase nĂŁo se vĂŞ


Quase nĂŁo se vĂŞ

AJFontes

Com os olhos fixos nas mensagens do zap abre a porta. Por detrás do celular vê azul e um branco algodoado. A pasta cai na soleira. Vira para um lado enquanto a pé esquerdo quer seguir o celular que dá piruetas entre as nuvens. O vento forte suga, segura o portal com as mãos, volta o rosto, abre a boca, o grito não sai. Joana enfia papeis na pasta sobre a mesa.

Um minuto antes estava lá.

- Aquele filme está em cartaz no ECT. Que acha de assistir hoje?

- Hum? Ela não tira os olhos do relatório no tablet ao lado do prato servido com frutas. - Ah! Tá. Mais tarde a gente combina.

Ele toma um gole café enquanto lê no celular a previsão do clima para hoje. Passeia entre sites, levanta a cabeça e percebe alguns fios brancos na mulher. Onde estão os cachos? Ela sorria mais. Brincávamos mais.

- Renato, o carro que queremos está com preço legal na Caxangá. Sábado iremos ver.

- Tá. Respondeu sem tirar os olhos dela.

Quase quebrei o pescoço quando cai no buraco da calçada. Ela ria com algumas amigas na esquina do São Luiz. Eu caminhava. Ouvia a última versão do poema de Joca, quando vi o sorriso mais bonito do mundo. Aí, enfiei o pé no buraco da calçada, até o joelho. Ela correu. Puxou-me para cima, perguntou se estava bem. Eu balançava a cabeça. A dor, vergonha e admiração cortaram minha língua.

Com o cotovelo apoiado na mesa, ele passou a mão na testa. Encontrou a quase esquecida cicatriz, resultado de uma queda de bicicleta na ladeira. Desbravar as ruas do bairro no presente de natal era o que mais desejava. Mas, havia uma garota na calçada e ela tinha o sorriso mais bonito do mundo.

No princípio, acariciava o corte como se fosse o rosto da musa. O lápis deslizava e os versos nasciam no meio de jardins, mares e céus. Agora, é cacoete. Da poesia para o jornalismo foi um pulo.

Um pulo!

Agarrado à figura de Joana, um pé buscando apoio na parede, o outro desliza na soleira, volta o rosto para a saída. No vazio, linhas formam pedras e um caminho transparente se mostra. O vento abranda e a brisa alisa o rosto. As mãos aliviam. Os pés se juntam. O coração bate compassado. Um fio de sorriso.

Um passo.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Vaga no mundo




Vaga no mundo

AJFontes

 

A estrada perturbada por buzinas e motores de carros raivosos pela interrupção do descanso. Veem somente as listras amarelas no asfalto. Alheios a luz vinda do céu que brilha nas gotas, antes de cair das folhas verdes nas matas dos morros ao lado. Ninguém vê essa beleza? Após aceleradas, freios e manobras chega ao estacionamento.
 
Passos surdos povoam o caminho até o elevador. São ternos escuros, saias longas, pastas, bolsas e celulares. Por linhas cruzadas, curvas ou retas, chegam ao cubículo que Despeja partes em camadas subsequentes, acima, mais acima. Em cada uma delas, novos arranjos ou desarranjos no fluxo e os grupos chegam aos corredores que separam pequenas caixas abertas de laterais baixas onde pousa um computador, papeis e outras coisas. Ocupam dois metros repetidos dezenas de vezes. Luzes anêmicas, ares sintéticos, cores plásticas.

Pousa os pertences no canto e senta. Num giro da cadeira suspira ao encontrar um galho verde da copa de uma árvore ao sabor do vento lá fora. Inicia os contatos cibernéticos. Estica o pescoço. A cima de um metro e quarenta centímetros o mundo é vazio. Tabelas na tela, analises rabiscadas no papel ao lado. O compasso militar de um caminhar atravessa o corredor e levanta uma onda de toques nos teclados e vozes, quebrada na parede ao fundo. Sobra o encaixe da lingueta da maçaneta no portal.
Quilos de números, nomes. Alguns deleites se apresentam em convites para festinhas. Hoje não dá.
Soma-se aos sons, a abertura dos plásticos que embrulham comidas não menos artificiais. Seria o momento do almoço, mas é apenas uma pequena parada para atender à necessidade física que insiste: Tô com fome.
Filho, descanse um pouco, faça a digestão. Diria minha mãe. Não há tempo. No mar revolto os escafandristas lutam por espaços entres erros e acertos. De snokel, máscara e nadadeiras, ele se mantém flutuando. Por vezes, observa e caminha por entre as árvores verdes, de cheio forte que deixou à margem de seu caminho.
Um minuto antes da exaustão, desagua o riacho de mágoas, belezas efêmeras, felicidades estéreis. Se espraia no estacionamento.
Ele senta no carro. Um longo suspiro espanta os nĂşmeros mais resistentes. Segue de encontro ao sol de amanhĂŁ, onde pulso entre pássaros, abraçado pelo verde. 
 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Eterno aprendiz



 
 
 
 
SĂŁo breves as planĂ­cies do saber. ĂŤngremes as ladeiras do aprender.
Depois de caminhar Ă  exaustĂŁo, o escritor segue tranquilo ao prĂłximo texto.
Assim, deixo a postagem de Mantas e lençóis.
 
Grato.
 
AJFontes

terça-feira, 28 de março de 2017

Mantas e lençóis












Mantas e lençóis

 

AJFontes

 
Os passos levantam o barro vermelho. O vento mistura o verde das algarobas enfileiradas. As sombras se alongam até o outro lado da rua.
O carcará voa em círculos. Com ele, mergulho na lembrança do condor a plainar sobre o vale.
 A água desabava do paredĂŁo e emudecia a mata. A figura alongada de tĂşnica laranja, listras azuis, capacete dourado, surgiu do lado da cortina espumada.
Caminhei sobre as pedras nas margens do lago.
- Sonhei com vocĂŞ.
- Faz dois anos do seu tempo. Vamos.
Entramos na escuridão por trás da cachoeira. Surgiram edifícios altos, estreitos, perfis ondulados; veículos voadores. Viajamos a planetas e dimensões diferentes. Vi o universo no passado, presente e futuro. Despedi-me do amigo ao som das águas, sombreado pelas asas da grande ave.
O pó fino salta das botas, segue até a fresta na janela. A luz mal consegue varar o vidro para iluminar as três mesas do salão na pousada da Margarida. Na última, dois copos, uma garrafa de cachaça, dois pares de olhos vermelhos.
Atrás do balcão a silhueta esguia, ancas em boa medida, saia azul, estampas de flores amarelas e bata branca de alças finas nos ombros amorenados. Ondas negras escorrem da cabeça ao meio das costas.
- Boa tarde. A senhora tem quarto vago?
O olhar de Miguel passeia pelos seios, colo, pescoço. Responde ao sorriso que recebe.
- Tem sim. O banheiro Ă© no fim do corredor.
- Chuveiro?
- NĂŁo. Cuia. Mostra o livro aberto.
Demora na visĂŁo do rosto brejeiro. Assina.
 - Vem de longe?
- Xinguara, no Pará.
- Longe! Subindo, é a terceira porta. Se quer jantar, tem macaxeira, charque, cuscuz e café. Sirvo no salão.
- Obrigado. Tomo banho e volto.
Embriagado pelo perfume da flor de canela, ouço mĂşsica no ranger das tábuas sob os pĂ©s. A maçaneta emperrada me traz Ă  realidade. ApĂłs dias dormindo na mata, em calçadas e poltronas de Ă´nibus, a cama encostada na parede Ă© como aconchego de mĂŁe. Apoio a mochila na prateleira do guarda-roupa em frente, retiro roupas limpas sob medalhas de ouro, maracás coloridos, cristais de quartzo. Nesses quarenta anos tanto recolhi quanto deixei pra trás.      
Sem a poeira de cinco Estados, espero sentado. O falatĂłrio mostra o efeito da bebida na mesa de fundo.
Margarida observa da cozinha homem mais velho se aproximar.
- Boa noite, amigo. O senhor vem de longe. A seca Ă© a mesma praquelas bandas?
- Chuva mesmo, só no Pará. Nos outros lugares o céu não tem um risco de nuvem.
- Pronto moço, sua janta. Olha firme e franze a testa.
Já não tinha gostado desses caras, agora ela me vem com essa cara franzida.
- Tá servido moço?
- Agradecido. TĂ´ tomando uma com o companheiro ali.
Passa a mão sobre a mesa, aponta para o fundo do salão e deixa cair alguma coisa na caneca de café.
- Aproveite seu jantar, amigo.
Corto a macaxeira, enquanto procuro sinais estranhos no café.
A mulher sai da cozinha. Para junto a mim e de costas para os caras.
- Tá gostando da comida? Troca a caneca da mesa por outra que escondia no avental.
- Muito boa e o café, quente e forte.
Ela volta Ă  cozinha.
Vai ver querem a bolsa. Levam não. A manta. Ganhei do velho inca cheio de magias. Ainda ouço ele dizer: Quando não quiser ser visto se cubra.
- Até amanhã.
- Já vai dormir?
- TĂ´ cansado.
- Bom sono.
Miguel esvazia a mochila na cama. Ah, tá aqui. A cor assume o vermelho da coberta ou o branco, quando junto à parede caiada.
O ranger do assoalho alerta. O cheiro de aguardente denuncia a presença. Ouve os movimentos.
CadĂŞ ele? E a bolsa? VocĂŞ viu quando entrou? Sim. Fiquei na escada e vi. Margarida nem notou.
Encolhido no canto, junto à bagagem, vê a traseira das calças do velho pela brecha da manta. Na cintura, a bainha de couro guarda a faca que ele retira.
Vamos descer.
Atento aos sons fora do quarto, torceu a manta em tira, prendeu à cintura, segurou a faca. Estão lá embaixo.
Corredor, escada, salão. Atirou a faca. Cravou na parede entre os homens. O velho se jogou para trás e caiu da cadeira. O amigo, cuspiu a bebida. Correu, chutou a pistola na mão daquele caído, socou e arremessou o outro na parede, puxou a manta, jogou sobre ele. Ouviu tiros, apareceu, socou o atirador, tomou a arma, virou-se, atirou na faca. Tim... Tim... Tim... O cano do revólver indica a saída. Mãos sobre as cabeças, pé ante pé. Na rua, são engolidos pela noite.
Sinto o calor do corpo de Margarida. A boca junto ao meu rosto.
Bruxo.
Deixo-me levar, laçado pelas ondas de seu requebro. Luzes dançam por todo o quarto de hálito inebriante. Nossos olhares se encontram e cegam. Somos o agito das nuvens, o rasgo dos raios, a explosão dos trovões; o transbordo das águas. Tudo. Em um átimo: Nada. Entregues à brisa, pousamos serenos no espelho do lago.
O sol desliza no fio de suor entre os peitos da cabocla.
Bruxa.
A janela do Ă´nibus emoldura o marrom da caatinga. Os solavancos embalam os cheiros e gemidos guardados na mochila. Outra cidade aparece na curva.