quinta-feira, 13 de abril de 2017

Eterno aprendiz



 
 
 
 
São breves as planícies do saber. Íngremes as ladeiras do aprender.
Depois de caminhar à exaustão, o escritor segue tranquilo ao próximo texto.
Assim, deixo a postagem de Mantas e lençóis.
 
Grato.
 
AJFontes

terça-feira, 28 de março de 2017

Mantas e lençóis












Mantas e lençóis

 

AJFontes

 
Os passos levantam o barro vermelho. O vento mistura o verde das algarobas enfileiradas. As sombras se alongam até o outro lado da rua.
O carcará voa em círculos. Com ele, mergulho na lembrança do condor a plainar sobre o vale.
 A água desabava do paredão e emudecia a mata. A figura alongada de túnica laranja, listras azuis, capacete dourado, surgiu do lado da cortina espumada.
Caminhei sobre as pedras nas margens do lago.
- Sonhei com você.
- Faz dois anos do seu tempo. Vamos.
Entramos na escuridão por trás da cachoeira. Surgiram edifícios altos, estreitos, perfis ondulados; veículos voadores. Viajamos a planetas e dimensões diferentes. Vi o universo no passado, presente e futuro. Despedi-me do amigo ao som das águas, sombreado pelas asas da grande ave.
O pó fino salta das botas, segue até a fresta na janela. A luz mal consegue varar o vidro para iluminar as três mesas do salão na pousada da Margarida. Na última, dois copos, uma garrafa de cachaça, dois pares de olhos vermelhos.
Atrás do balcão a silhueta esguia, ancas em boa medida, saia azul, estampas de flores amarelas e bata branca de alças finas nos ombros amorenados. Ondas negras escorrem da cabeça ao meio das costas.
- Boa tarde. A senhora tem quarto vago?
O olhar de Miguel passeia pelos seios, colo, pescoço. Responde ao sorriso que recebe.
- Tem sim. O banheiro é no fim do corredor.
- Chuveiro?
- Não. Cuia. Mostra o livro aberto.
Demora na visão do rosto brejeiro. Assina.
 - Vem de longe?
- Xinguara, no Pará.
- Longe! Subindo, é a terceira porta. Se quer jantar, tem macaxeira, charque, cuscuz e café. Sirvo no salão.
- Obrigado. Tomo banho e volto.
Embriagado pelo perfume da flor de canela, ouço música no ranger das tábuas sob os pés. A maçaneta emperrada me traz à realidade. Após dias dormindo na mata, em calçadas e poltronas de ônibus, a cama encostada na parede é como aconchego de mãe. Apoio a mochila na prateleira do guarda-roupa em frente, retiro roupas limpas sob medalhas de ouro, maracás coloridos, cristais de quartzo. Nesses quarenta anos tanto recolhi quanto deixei pra trás.      
Sem a poeira de cinco Estados, espero sentado. O falatório mostra o efeito da bebida na mesa de fundo.
Margarida observa da cozinha homem mais velho se aproximar.
- Boa noite, amigo. O senhor vem de longe. A seca é a mesma praquelas bandas?
- Chuva mesmo, só no Pará. Nos outros lugares o céu não tem um risco de nuvem.
- Pronto moço, sua janta. Olha firme e franze a testa.
Já não tinha gostado desses caras, agora ela me vem com essa cara franzida.
- Tá servido moço?
- Agradecido. Tô tomando uma com o companheiro ali.
Passa a mão sobre a mesa, aponta para o fundo do salão e deixa cair alguma coisa na caneca de café.
- Aproveite seu jantar, amigo.
Corto a macaxeira, enquanto procuro sinais estranhos no café.
A mulher sai da cozinha. Para junto a mim e de costas para os caras.
- Tá gostando da comida? Troca a caneca da mesa por outra que escondia no avental.
- Muito boa e o café, quente e forte.
Ela volta à cozinha.
Vai ver querem a bolsa. Levam não. A manta. Ganhei do velho inca cheio de magias. Ainda ouço ele dizer: Quando não quiser ser visto se cubra.
- Até amanhã.
- Já vai dormir?
- Tô cansado.
- Bom sono.
Miguel esvazia a mochila na cama. Ah, tá aqui. A cor assume o vermelho da coberta ou o branco, quando junto à parede caiada.
O ranger do assoalho alerta. O cheiro de aguardente denuncia a presença. Ouve os movimentos.
Cadê ele? E a bolsa? Você viu quando entrou? Sim. Fiquei na escada e vi. Margarida nem notou.
Encolhido no canto, junto à bagagem, vê a traseira das calças do velho pela brecha da manta. Na cintura, a bainha de couro guarda a faca que ele retira.
Vamos descer.
Atento aos sons fora do quarto, torceu a manta em tira, prendeu à cintura, segurou a faca. Estão lá embaixo.
Corredor, escada, salão. Atirou a faca. Cravou na parede entre os homens. O velho se jogou para trás e caiu da cadeira. O amigo, cuspiu a bebida. Correu, chutou a pistola na mão daquele caído, socou e arremessou o outro na parede, puxou a manta, jogou sobre ele. Ouviu tiros, apareceu, socou o atirador, tomou a arma, virou-se, atirou na faca. Tim... Tim... Tim... O cano do revólver indica a saída. Mãos sobre as cabeças, pé ante pé. Na rua, são engolidos pela noite.
Sinto o calor do corpo de Margarida. A boca junto ao meu rosto.
Bruxo.
Deixo-me levar, laçado pelas ondas de seu requebro. Luzes dançam por todo o quarto de hálito inebriante. Nossos olhares se encontram e cegam. Somos o agito das nuvens, o rasgo dos raios, a explosão dos trovões; o transbordo das águas. Tudo. Em um átimo: Nada. Entregues à brisa, pousamos serenos no espelho do lago.
O sol desliza no fio de suor entre os peitos da cabocla.
Bruxa.
A janela do ônibus emoldura o marrom da caatinga. Os solavancos embalam os cheiros e gemidos guardados na mochila. Outra cidade aparece na curva.
 
 
 



 
 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Chuva


Chuva

AJFontes

 

Eita calor!

 

Chuva, chove logo.

Deixe de pantim e caia.

Não fique nessa leseira

Juntando essa água toda.

 

Demorou para subir.

Precisou de calor,

Caiu deitou e rolou.

Ajudou a planta a crescer

O bicho a viver

O homem a se manter.

 

Trabalhou um bocado

Bem que merece descanso.

Longe do barulho

Sem correria nos rios.

Sem o balanço no mar

Para lá e para cá.

Nos lagos se aquieta.

Carece de um cochilo

Ninguém é de ferro.

 

Descanso mesmo

Tem lá em cima.

No silêncio

Parada.

Desse jeito

Tinha mais que engordar.

Tanto que derrete.

 

Um pingo aqui outro ali

Bate no rosto.

Arrasta a poeira das folhas

Até aparecer o verde.

Limpa o chão

O cheiro de terra molhada aparece.

 

Eita chuvarada!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

É sexta-feira






É sexta-feira


AJFontes


 

Os cascos soam diferente.
- Chegamos.
A fumaça do café, cuscuz, charque assada se espalha na rua e movimenta a barraca de Matilde.
- Josué, tenho sede! Bate uma pata dianteira nas pedras do calçamento.
- Calma, Beiçola.
Mete a cara no balde, bebe metade, levanta a cabeça e joga água pelas ventas. Molha as costas de Maneco.
- Ei amigo! Passa a mão na crina.
A cozinheira aproxima um balaio cheio de sabugo e palha de milho.
- Não esquece o Beiçola aqui, né?
- Você é dos meus.
As mangas e jacas, que enchiam os caçuás, estão na barraca armada por Josué, ao lado das outras. Na rua, formam duas carreiras de diferentes cores e cheiros. No centro um tapete de paralelepípedos termina no muro do campo de futebol. No meio da manhã, os balaios dançam na cabeça dos moleques, ladeados pelas senhoras compradoras.
- Quanto é o quilo da macaxeira?
- É dois. Cozinha na água fria.
- Olha a laranja bahia madame! Aparece Maneco. As frutas no pequeno cesto.
A procissão segue nos passos dos carregadores, até uma lasca do sol se esconder no fim da rua. O chão de pedras se mostra; as madeiras sujas das bancas ressurgem; as vozes se calam.
Beiçola abre os olhos, enxerga no calçamento a sombra que aponta em sua direção.
- Como está a humanidade, professor João?
- Não muda há séculos. Coloca os pertences na banca, encosta no poste, retira o lenço encardido do bolso e enxuga o rosto. Veja Maneco. Apurou algum dinheiro das laranjas que planta no quintal da casa, onde mal cabe ele, a mulher e quatro filhos. Tudo nas terras do patrão, que vai lá duas, três vezes por mês.
A gritaria do bando que persegue uma cabra extraviada faz o professor saltar para frente. Passa o lenço na testa, chega mais perto de Beiçola.

- Nada falta para os bichos ou lavoura do doutor. O ganho é tão pouco que carece de completar aqui. Danado é que levanta as mãos, diz que homem bom tá ali. Doutor Candeias nunca lhe faltou com o salário.
Acompanha a voltam os meninos. Arrastam a cabra quase enforcada.
- O dinheiro é meu porque eu peguei!
- Mas eu botei a corda no pescoço!
 
Seguem na disputa e João no seu discurso.
 
- Tomar a meiota de cachaça na barraca de Matilde com o pacaia pendurado nos beiços, é o prazer no fim da feira, enquanto o homem bom saboreia o uísque escocês e balança o cohiba entre os dedos, na beira da piscina. Suspira, junta os livros em baixo do braço.
 
- Até pra semana, Beiçola.
- Até sexta-feira, professor.
Coitado. Entende tudo, mas não é feliz.
Eita, é agora. Solta um relincho que vara a mancha vermelha por cima do muro.
Josué balança entre os caçuás. Sorri com a dança insinuante das estrelas.
Os cascos batem na areia fofa.
- Voltamos.
 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Água fresca faz bem




Água fresca faz bem

AJFontes

 

Curvado, arrasta os chinelos. O direito, o esquerdo. A barba incomoda. Tanta coisa e a casa vazia. Faltou pouco para Belinha se arrebentar na cristaleira, quando aprendia a andar. Amália, com toda paciência, levantou a pequena, beijou a bochecha, até arrancar um sorriso de nossa princesa e voltou à poltrona, na sala de estar. Que falta sinto dessa mulher. Já mocinha, Isabel passava horas assistindo TV, sentada no sofá. Depois veio Robertinho. Netinho danado. Nunca gostou desse elefante de marfim sobre a mesa de centro. Agora, moram em Belo Horizonte.
O direito, o esquerdo. Preciso lavar o filtro. O ombro dói no movimento de levantar o copo de água. Não mereço essa merda de vida! Estou só, mas estou vivo. Direito esquerdo direito esquerdo. Chuveirada, cara lisa, roupa cheirosa. Sou outro homem!
Na calçada, espera o portão. Ele sempre bate. Enche cada canto do corpo com o ar fresco que recolhe da manhã. Manchas verdes clamam por sua aproximação. Direito, esquerdo, bengala; direito, esquerdo, bengala. Assiste, quieto, a dança das folhas no palco de fundo azul. Um risco nos lábios invade o dia. As brincadeiras dos meninos o fazem esquecer a dureza do banco.
- Seu Juvenal, quanto tempo.
- Dona Mereciana, resolvi sair um pouco. A senhora não apareceu mais.
O olhar passeia pela fartura de prazeres na mulher. Essas curvas. O cheiro dessa pele.
- Vamos tomar um copo d’água fresca lá em casa?
- Verdade. Esse calor dá uma sede danada, mas não quero dar trabalho ao senhor.
- Trabalho nenhum. Já estava voltando mesmo.
Direito esquerdo direito esquerdo direito esquerdo.
- Calma homem. Por que a pressa?
- Ah! É a vida palpitando minha filha. E eu mereço.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Junte a fome com a vontade de escrever


Junte a fome com a vontade de escrever.

AJFontes

 

Vou melhorar o texto. Dá pra caracterizar a figura do cara. Puxa, que fome. Depois do almoço não comi nada. Vou entremear falas dele com características físicas. Tenho frutas em casa. O trânsito não ajuda nessa hora. O cenário mostro de cara, ou não? Tenho granola também. Ligo os personagens. Fulano olha beltrano, que observa cicrano. Junto banana, abacate, granola e mel. O principal mostra a contradição de todo mundo, pensa uma coisa e faz outra. Que fome. Vai ficar interessante assim. O texto e a salada.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Paranoia


Paranoia

 

AJFontes

 

A rua cheia. Carros aguardam o sinal abrir. O trem composto de possantes quatro por quatro, elegantes mercedes. Eu, no meu corcel velho desbotado. Vidros fechados por medo. Lá vem o menino e a maldita garrafinha. Da última vez levaram o celular. Mas a cara desse não parece ruim. Quem vê cara não vê coração. Porra, o que faço? Ele vai chegar. No retrovisor, olhar desesperado, como do cachorro poodle, um quarteirão atrás, andando de um lado para o outro, com a língua para fora da boca, encarando cada passante. O suor escorre. Já tá seringando de longe. Aquilo na cintura é um revolver. Meu Deus. Não dá mais. O sinal abre, passo a primeira arranhada, aos pinotes sigo na composição. Adiante estaciono. Respiro profundo. Ele ia me assaltar, ele ia me assaltar.