segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Junte a fome com a vontade de escrever


Junte a fome com a vontade de escrever.

AJFontes

 

Vou melhorar o texto. Dá pra caracterizar a figura do cara. Puxa, que fome. Depois do almoço não comi nada. Vou entremear falas dele com características físicas. Tenho frutas em casa. O trânsito não ajuda nessa hora. O cenário mostro de cara, ou não? Tenho granola também. Ligo os personagens. Fulano olha beltrano, que observa cicrano. Junto banana, abacate, granola e mel. O principal mostra a contradição de todo mundo, pensa uma coisa e faz outra. Que fome. Vai ficar interessante assim. O texto e a salada.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Paranoia


Paranoia

 

AJFontes

 

A rua cheia. Carros aguardam o sinal abrir. O trem composto de possantes quatro por quatro, elegantes mercedes. Eu, no meu corcel velho desbotado. Vidros fechados por medo. Lá vem o menino e a maldita garrafinha. Da última vez levaram o celular. Mas a cara desse não parece ruim. Quem vê cara não vê coração. Porra, o que faço? Ele vai chegar. No retrovisor, olhar desesperado, como do cachorro poodle, um quarteirão atrás, andando de um lado para o outro, com a língua para fora da boca, encarando cada passante. O suor escorre. Já tá seringando de longe. Aquilo na cintura é um revolver. Meu Deus. Não dá mais. O sinal abre, passo a primeira arranhada, aos pinotes sigo na composição. Adiante estaciono. Respiro profundo. Ele ia me assaltar, ele ia me assaltar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Muito ou pouco


Muito ou pouco

 

Um minuto.

Cada cheiro, dor,

alegria, cada cor.

 

Um minuto.

Cada medo, som,

sabor, cada dom.

 

Um minuto.

Cada toque, sorte,

morte. Cada morte.

 

Um minuto.

Tudo que tenho.
 
Tudo que sou.
 
AJFontes

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Assim caminha a humanidade


Assim caminha a humanidade


 

Olhos embaçados, aos poucos percebe o verde pálido das paredes, o branco do armário estreito. A porta entreaberta mostra roupas penduradas. A língua grossa. Cai uma gota cristalina do saco plástico e escorre pela mangueira fina até a agulha, cuja metade entra nas costas da mão esquerda. A cabeça dói.

- Olá! Bom ver o senhor acordado. Sorridente, a moça saca o equipamento do bolso da saia. Depois do susto, ainda aperta o braço com esse negócio.

- Boca seca, barriga dolorida, a cabeça dói. Não tem nada bom.

- Calma. Vai passar. Quando quiser chamar, aperte o botão do lado. Melhor não falar ou fica cheio de gases, disse ao atravessar a porta.

Sozinho? Flavinha foi visitar a mãe, só volta depois de amanhã. Não poderia adivinhar. Que horas são? Dói. Quarto verde. Dormi? Relatório.... À tarde vou... Caminhar. Estou... A enfermeira...  Novamente?

- Olá seu Fonseca. Como está?

- Estava dormindo doutor. Tá muito dolorido.

- É normal. Seu abdômen foi cortado. O senhor chegou ao hospital com início de infecção no apêndice. A cirurgia evitará problemas. Lá vem explicações. Sei, sei. Sou forte. Bom chegar no momento certo. Parece o homem da cobra.

- Dois dias! Doutor, pensei sair amanhã.

- O senhor mora só. Não é tão jovem. Aqui está seguro. Amanhã, caminhe pelo corredor. Passo às três da tarde para ver como está. Boa noite seu Fonseca.

Cadê o tal botão?

- Boa noite seu Fonseca. Sou a enfermeira de plantão.

- Preciso ir ao banheiro.

- Vamos lá.

Nem lembro quando comecei a correr. O embarque no voo da VARIG, dia trinta de dezembro de mil, novecentos e setenta e seis. Tinha Vinte. Ou vinte e um? Estava no apogeu da forma física. Ah! Aquelas belezas passando no corredor do avião. Serviço de primeira. Pratos de louça, talheres de metal, copos de vidro.

Dia seguinte, esquentava meu corpo em frente ao edifício Cásper Líbero, na Paulista. Hehe, terra da garoa. Éramos mais de quatrocentos homens e mulheres. Largamos meia hora antes do ano novo. O trote seco no asfalto. Mantive o ritmo nos sete mil e trezentos metros. Na reta final, o corpo era levado pela força que restava no coração. Cheguei depois de vinte e seis minutos e trinta e poucos segundos. O chileno barbudo ganhou. Mas eu estive lá, na chegada. Agora preciso de ajuda, pra urinar.

- Pronto. Está confortável? Os botões ao lado controlam a altura e inclinação do colchão.

- Obrigado.

Aproveita o inesperado brinquedo e procura a posição. Um longo suspiro trás o sono.

Dói. Nem tossir posso.

- Com licença. Bom dia.

Do carrinho estacionado na porta, a moça retira um prato e um copo. Arma a mesa de apoio na cama.

– Sua dieta. Bom dia.

Na hora. A fome apertou. Apreciando o insípido desjejum, observa o papel sobre a mesa no canto. O atestado. Preciso entregar isso hoje. Assim diz a CLT, mas como? Depois de 29 anos de casa sem faltas, a um ano da aposentadoria, não vou falhar agora. Será que posso?

Usando os botões, baixa a cama. Senta-se devagar. Essas rodinhas no suporte ajudam. Calça os chinelos, caminha até o banheiro. Encontrei um jeito. Assim dói pouco. Lava as mãos. Puxa vida, minha cara tá feia.

Segura o atestado, abre uma fresta na porta. Ninguém. Sai lento. O suporte acompanha. O trabalho toma a atenção das enfermeiras. Na porta adiante lê: ENTRADA PERMITIDA SOMENTE AOS FUNCIONÁRIOS. Já dentro, desvia de copeiras, faxineiras, descobre corredores, até encontrar a luz do dia. Esse vento frio na bunda. Vou assim mesmo.

Entra no primeiro táxi parado. O suporte primeiro.

Meu Deus. Um doido?

- Vamos ao centro, rápido. Digo o endereço no caminho. Vamos!

O motorista dá partida e segue.

A irritação se dissipa no semáforo fechado, ao assistir o beijo do casal parado na rua, interrompido pelo som histérico das buzinas. O caos urbano não permite outra visão agradável até o destino.

- Espere. Não demoro.

Desliga o motor.

- Bom dia seu João.

O porteiro arregala os olhos.

Aristides não vai sentir o gostinho de punir esse macaco velho. Vi aquele fedelho crescer aqui. Agora, assumiu a direção e quer ver minha caveira. Não vai não.

No trajeto é cumprimentado por colegas. Responde com acenos de cabeça.  O modelo chama a atenção. Gostam do bundão branco? Aquela enfermeira avisou sobre os gases.

A secretária monta um rosto de boas-vindas.

- Bom dia seu Fonseca. Já está de volta?

- Por favor, Aristides.

- Senhor Aristides. A senhor Fonseca quer falar. Sim, senhor. Pode entrar.

Da cadeira, por trás da mesa de trabalho, Aristides esboça um sorriso, mas logo desmancha diante da figura que se aproxima. Fonseca levanta a folha de papel e deposita lentamente sobre a mesa, sem desviar os olhos do patrão. Segura o suporte, dá meia volta e caminha, quando os gases acumulados rompem os ares formais do ambiente.
AJFontes

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Nossa Língua Portuguesa


Nossa Língua Portuguesa


 

Seis da manhã, tenho um tempinho para um último cochilo... “BOM DIA BRASIL” O som da TV enche a casa anunciando um novo dia televisivo.

No alto dos seus 2 anos de idade, o pequeno da família faz sua sonâmbula caminhada matinal do quarto de dormir até a sala e providencia para que as notícias do dia cheguem até nós da casa e da vizinhança. Num movimento contínuo dá meia volta, senta na cama e aguarda aquele que cotidianamente o apronta para sua jornada escolar.

Sem o último cochilo, inicio meu dia tonto com a torrente sonora vinda da sala. Vou ao quarto do pequeno e inicio o processo: Troco a camisa, as calças e sentado na cama apoiando as mãos no colchão enquanto calço as botinas ortopédicas e seus imensos cadarços, ele balança a cabeça sonolenta de olhos fechados.

Num dado momento resolvo ir até a TV e reduzir o som a um nível suportável. Volto e continuo.

Ele, parecendo ter real interesse pelas notícias do Brasil e do mundo, reclama: Oh pai! Assim eu não ovo nada.

Como orientador, corrijo: Não ouço nada. Ovo é de galinha.

Ele para o movimento da cabeça por uns segundos e replica: Osso é de cachorro, eu não ovo nada!

Sem argumento, solto uma gargalhada acompanhada por um olhar de espanto vindo da cama.

Já pronto, levo até a copa onde ele toma um copo leite e eu como um ovo de galinha.
AJFontes

sábado, 27 de agosto de 2016

Meu ídolo




Meu ídolo

 

A águia, pouco tempo sente a terra ou a água. Tão logo se equipa, já ensaia mergulhos no invisível onde aprende a viver. Seu bailado, no que parece nada, encanta. Mergulha com coragem e acerta o que quer. Mas não anda, pula. Na água, algumas se arriscam a um curto mergulho e sempre retornam ao seu reino. Ressoa um canto firme, único. Passa quase toda a vida só com suas penas, tocando o que não vê.

Pernas e garras possantes, seguram o tigre ao seu canto. Com movimentos delicados e precisos dos músculos, caminha. Não deixa que percebam sua presença até que decida se apresentar. Do ar, só os aromas que trazem alimento e paz nas sombras das árvores. Da água é penoso o toque, nem que seja para beber. Esparramado no leito da mãe que o acolhe leva seu tempo.

Tudo ouve e sente. No reino das águas o peixe desliza ágil ou lento. Forte, na solidão ou em grupos, encontra seu sustento. À terra agradece por conter o abrigo. É especial a forma de obter o oxigênio necessário. Imponente ou simples, espera o tempo passar. E passa.

Já o pato. Chega com um brilho dourado. Está sempre em bando. Distribui alegria na terra, quietude na água e ordem no ar. Seu estar bem é onde está. Seja com a águia, o tigre ou o peixe, vai pela vida afora: Sou eu, sou eu. Ando, voou e nado. Até canto. Mal...mas canto.
 

 
AJFontes

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Fluxo



Fluxo

 

Algo a fazer?

Faça agora.

Siga as instruções contidas na mente

Projetadas pelo coração.

 
                                                                                                                                                                AJFontes